Um morador da rocinha chamado Davison Coutinho, liderança comunitária da comunidade, relata para o Jornal do Brasil a realidade nas favelas em relação ao dia das crianças: o que comemorar?
Mais um Dia das Crianças se passou. Na televisão
os comerciais e propagandas já tomam conta. No entanto, o que as crianças
moradoras de favela têm para comemorar?
A cada dia a violência recrudesce nas favelas. É
cada vez mais comum assistir a filhos perdendo seus pais, e o futuro dessa
criança fica cada vez mais comprometido. Nas propagandas, ele enxerga e
vislumbra os brinquedos que sonha, mas desde cedo aprende que aquele mundo não
lhe pertence.
Assim, os pais o incentivam a buscar o futuro na
escola mas, infelizmente, a qualidade do ensino publico é péssima. Quando não
está em greve, não se tem todos os tempos de aula, sempre está com algum
problema, dificilmente funciona bem. As crianças e adolescentes estão saindo da escola sem nem
mesmo terem sido alfabetizados. Qual a possibilidade desse futuro adulto
ingressar no ensino superior ou concorrer a um emprego com outro que teve
oportunidades melhores.
A escola não é sedutora e, muitas vezes, a falta
de estrutura familiar e os problemas da casa impedem essa criança de estudar.
Como resultado, temos um número assustador de evasão escolar. De acordo com o
levantamento feito pela Casa Fluminense com base no Programa das Nações Unidas
para o Desenvolvimento (Pnud 2013), a média de evasão escolar no Rio de Janeiro
é de 3%, porém nas favelas essa média é superior a 10%. No caso da Rocinha, que
lidera a lista, o número passa de 17%. Segundo dados do IBGE 2010, apenas 1,6%
dos moradores de favela tem ensino superior.
Na favela, ele cresce assistindo a violência,
miséria e descaso. Toda essa descrição pessimista é a mais pura verdade. As
nossas crianças são verdadeiros heróis, pois passam por imensas dificuldades e
barreiras inimagináveis para a idade delas.
A saúde também é um fator assustador. Como sofrem
as mães desde o parto até o crescimento de seus filhos nas filas dos hospitais,
e quantos morrem pelo descaso com a saúde publica. Segundo a ONU, o índice de desnutrição no Brasil é de
19% entre os moradores de favelas, e 5% entre os que vivem em outras áreas urbanas.
Ainda segundo pesquisa, em cada oito crianças que vivem em favelas com
aproximadamente 10 anos, uma teve pais que foram assassinados.
Essa é a realidade de nossas favelas, esse é o dia
a dia das nossas crianças. Enquanto não tivermos uma política que pense na
inclusão delas, teremos sempre a violência presente nas favelas. Não adianta
remediar depois que o problema está pronto, a solução precisa ser na base.
Fonte: Jornal Hoje


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